SEBRAE: Exportações e empregos perdem fôlego no RN. Governo do RN: estudo contém inconsistências

1 de março de 2012

O Rio Grande do Norte seguiu na contramão do país e do Nordeste e perdeu força em dois dos principais termômetros usados para medir o aquecimento da economia: as exportações e o emprego. O diagnóstico, já apresentado em  dados oficiais do governo federal, foi reforçado ontem em estudo elaborado pela assessoria econômica do Serviço de Apoio a Micro e Pequena Empresa do estado (Sebrae RN). Entre outros dados, o levantamento mostra que a participação potiguar na geração de postos de trabalho com carteira assinada na região caiu de 8,5% para 3,7% entre 2005 e 2011. No caso das exportações, enquanto o Brasil cresceu 116,01% e o Nordeste avançou 78,30%, o RN recuou 32,03%, no período. Outro número que encolheu foi o valor exportado via Porto de Natal. O valor levou um tombo de 95%, passando de US$ 176,9 milhões, para US$ 7,1 milhões, em sete anos. A partir de 2006, o porto de Pecém, no Ceará, passou a ser a principal via de escoamento.

“O mercado potiguar transferiu-se para o Ceará, com todas as benesses contidas nesse processo: empregos, impostos e dinamismo econômico”, escreveram a analista técnica da Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae, Alinne Silva, e a assessora técnica Inalda Marinho, ao comentarem no estudo sobre as exportações especificamente do melão, uma das que perderam força e espaço para os estados vizinhos. Para se ter ideia da situação, era do RN que saia 61,14% do valor gerado com as exportações brasileiras da fruta, em 2005. Mas o percentual despencou para 39,39% no ano passado. No mesmo período, a participação do Ceará foi catapultada de 37,69% para 59,52%.

Os números, apresentados na última segunda-feira para os membros do Conselho Deliberativo do Sebrae no estado – que reúne representantes de entidades de classe, de instituições financeiras e de áreas como crédito e pesquisa e tecnologia do governo – deixaram em alerta os empresários, que apontam  falhas na política de incentivos e em áreas como infraestrutura do RN.

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, ontem, o superintendente do Sebrae RN, Zeca Melo, avaliou o cenário como crítico e cobrou reação. “Nós precisamos de um norte, de um grande projeto de desenvolvimento. Atrair investimentos é importante, mas isso tem que vir num determinado contexto. 40% das nossas exportações são frutas. Mas as vendas estão caindo. Que tipo de intervenção vamos fazer para reverter isso? É preciso agir, traçar diretrizes”, disse, se referindo também aos dados globais.

No que diz respeito à fruticultura, o setor foi fortemente afetado pela crise financeira que atinge a Europa, seu principal mercado consumidor. As turbulências ajudaram a reduzir as exportações, mas, outros elementos explicam a perda de terreno para o Ceará. “A política de incentivos do governo cearense pesou. Se o estado propõe algo mais atrativo para o produtor, automaticamente ele vai exportar a partir de lá. Ele vai para onde for melhor para o bolso”, diz o presidente do Coex, Comitê que reúne produtores e exportadores de frutas do RN e do Ceará, Francisco de Paula Segundo. Os produtores de melão estão entre os que transferiram as exportações do Porto de Natal para estados vizinhos. Problemas de acesso ao Porto estão entre os motivos. Atrasos na devolução de créditos, por parte do governo, também. Apesar dos entraves, os fruticultores esperam crescimento nas exportações este ano, mas não arriscam ainda um percentual. De acordo com Segundo, eles reduziram o preço para se ajustar à nova realidade da Europa. A pesquisa do Sebrae pode ser acessada em http://portal.rn.sebrae.com.br/pagina.php?id=115.

[dropcap color=”#000000″ font=”georgia” fontsize=”15″]Governo promete apoio aos empresários[/dropcap]

 

Os empresários cobram incentivos e a efetivação de uma política estadual de estímulo ás exportações, na qual o governo garante já estar trabalhando. “Estamos trabalhando no projeto. Esperamos que em abril ou maio ele já possa ser encaminhado à assembleia legislativa”, diz o  secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Benito Gama, sem detalhar que possíveis incentivos serão propostos.

Para o presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), Amaro Sales, o apoio aos exportadores é “vital”. “Se o governo ficar alheio a esse problema (de retração do comércio exterior e dos empregos) as exportações do estado vão virar um ‘traço’ e a economia como um todo será afetada”, alerta. “A capacidade de exportações das empresas precisa ser redescoberta com incentivos”, acrescenta. A Fiern chegou a propor ao governo a criação do programa de incentivos aos exportadores, diz Sales. “É preciso também identificar nossas potencialidades. O atum, por exemplo, não era visualizado em nível de exportação, mas foi feito um trabalho do Senai com uma empresa do Japão para exportarmos. Hoje o produto é destaque na nossa pauta”, ressalta. Dados do Ministério da Pesca mostram que o Rio Grande do Norte registrou no ano passado um crescimento de 166,75% no volume comercializado do produto a outros países e um faturamento 250,09% superior ao alcançado em 2010. “Eu diria que as perdas que registramos nos últimos anos foram um cochilo. E que faltou incentivo. Estamos preocupados com isso”, diz Sales.

O secretário de Desenvolvimento Econômico, Benito Gama, disse que a retração das exportações e da geração de empregos mostra a “degradação  da economia potiguar nos últimos anos” como fruto da “inação do governo”. “O estado perdeu gradativamente sua capacidade econômica. Não recebeu projetos estruturantes nos últimos anos. Enquanto outros estados investiram em infraestrutura e atraíram novos investimentos. A nossa luta agora é mudar isso. Não estamos de braços cruzados”, disse.

Um programa do governo para estimular as importações pelo porto e o aeroporto da Grande Natal – o  Import RN – foi regulamentado, mas, para se manter “vivo”, dependerá dos resultados da votação de outro projeto que impede isenções de ICMS, em discussão no Senado. Enquanto isso, o foco se volta para o Export RN.

[dropcap color=”#000000″ font=”georgia” fontsize=”15″]Saiba Mais[/dropcap]

 

O economista e chefe do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no RN, Aldemir Freire,  já analisava que  investimentos realizados nos estados vizinhos e deficiências na infraestrutura potiguar estão entre as possíveis razões para a perda de ritmo da economia do estado nos últimos anos, em entrevista à TRIBUNA DO NORTE em dezembro do ano passado. De acordo com ele, no período de oito anos compreendidos entre 1995 e 2002, nenhum estado do Nordeste e nem o país cresceram tanto quanto o Rio Grande do Norte. Enquanto o estado avançou 24,51% no período, vizinhos como o Ceará e Pernambuco nem sequer alcançaram o patamar de 15%. Boa parte da expansão da economia potiguar era creditada ao desenvolvimento da indústria do petróleo. Com a queda na produção em decorrência do amadurecimento dos campos, a indústria, porém, perdeu força. Outras atividades econômicas de peso  desaceleraram e o resultado dessa equação foi uma inesperada marcha lenta para o RN. Para se ter ideia de como o estado passou de protagonista à coadjuvante na região, o crescimento registrado entre 2002 e 2009 ficou na casa dos 24,60%. Enquanto isso, o de Pernambuco, por exemplo, dobrou. O do Piauí mais que triplicou. Todos os outros estados se expandiram mais que o RN.  Os problemas na infraestrutura são sentidos em atividades como o meão. Cerca de 8% da produção é perdida por causa de danos sofridos pelas frutas enquanto são transportadas por via terrestre. A obra da estrada do melão, que teve a primeira etapa executada, parou, diz Segundo, do Coex. “Enquanto isso, o Ceará reforçou as estradas, desde Baraúnas”, afirma.

O Governo do Estado voltou a se manifestar ontem sobre o estudo do Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae RN) que mostrou esta semana a desaceleração das exportações do Rio Grande do Norte e a perda de participação do estado nos contextos do Nordeste e do país. Em texto encaminhado à imprensa, o secretário adjunto de Planejamento, José Lacerda Felipe, afirma que as exportações atuais do RN não podem ser comparadas  às registradas no período de 2002 a 2006, se referindo ao fato de o estudo ter analisado o desempenho potiguar no período de 2005 a 2011. O argumento do secretário é que no período de 2002 a 2006 o estado exportava petróleo e o produto representava em 2005, por exemplo, 23,4% do valor total negociado com outros países. As vendas, entretanto,  não ocorreram mais a partir de 2007.   “Portanto, comparar as exportações atuais com a desse período, sem citar essa relevância, leva a uma análise que distorce a realidade e passa a imagem de um quadro negativo para a economia do estado”, disse Lacerda.

A retirada do petróleo da pauta de exportações, a desaceleração do comércio internacional de camarão e a crise financeira da Europa, uma das principais consumidoras dos produtos agrícolas do Rio Grande do Norte  – entre eles o melão –  são citadas por ele entre as razões para que as exportações do estado tenham caído.  Representantes de entidades empresariais ouvidos pela TRIBUNA DO NORTE na última quarta-feira, quando foi publicado o estudo, demonstraram preocupação com o cenário e ressaltaram a importância de o estado investir em infraestrutura e em uma política de apoio aos exportadores, na qual o governo diz já estar trabalhando. Infraestrutura e incentivos concedidos em outros estados têm tornado os “vizinhos” mais vantajosos que o RN como pontos de saída das exportações, de acordo com os empresários.

O secretário não analisa os incentivos oferecidos no RN, mas acrescenta: “Em 2002 as nossas exportações retirando o petróleo foram 199,6 milhões de dólares, em 2011 também sem petróleo nessa pauta, exportamos 281,2 milhões de dólares, portanto em termos de valores estamos mantendo essa economia viva, apesar da crise na Europa, apesar da queda vertiginosa das nossas exportações de Camarão”, diz. As exportações de petróleo, segundo informa o secretário, foram iniciadas em 2002, tendo como parceiro comercial Trindad e Tobago, “certamente obedecendo a uma logística financeira da Petrobras de destinar parte da nossa produção para esse mercado externo nesses cinco anos que vão de 2002 a 2006″. Em 2004, quando as vendas atingiram o pico, o valor exportado em petróleo chegou a US$ 284,2 milhões, representando 49,5% do total exportado pelo RN no período.

[dropcap color=”#000000″ font=”georgia” fontsize=”15″]Dados mostram desaceleração[/dropcap]

 

O Sebrae mostra, em dois diferentes estudos publicados esta semana, que a participação potiguar na geração de empregos com carteira assinada no Nordeste caiu de 8,5% para 3,7% entre 2005 e 2011. No caso das exportações, enquanto o Brasil cresceu 116,01% e o Nordeste avançou 78,30%, o RN recuou 32,03%, no período. “O mercado potiguar transferiu-se para o Ceará, com todas as benesses contidas nesse processo: empregos, impostos e dinamismo econômico”, aponta o estudo ao detalhar as exportações especificamente do melão, que perderam força e espaço para os estados vizinhos.    Era do RN que saia 61,14% do valor gerado com as exportações brasileiras da fruta, em 2005. Mas o percentual caiu para 39,39% em 2011. O do Ceará, por sua vez, subiu de 37,69% para 59,52%.

O levantamento mostra que a participação do estado no Brasil caiu de 0,35% para 0,11% no valor exportado, entre 2005 e 2011 – considerando o valor global e não apenas o do melão. No Nordeste, a participação potiguar recuou de 3,92% para 1,49% no período.

A desaceleração é constatada mesmo se a comparação for feita com 2007, ano que antecedeu a crise e em que não foi registrada exportação de petróleo. Os números mostram que o RN fechou o ano de 2011 com uma participação quase duas vezes menor nos contextos do Nordeste e do Brasil, em relação a que detinha naquele ano. A participação do estado caiu de 0,24% para 0,11% no Brasil e de 2,90% para 1,49% no Nordeste.

O secretário de Desenvolvimento Econômico, Benito Gama, que assistiu a apresentação dos dados do estudo em reunião do Conselho Deliberativo do Sebrae, na última segunda-feira, comentou, em entrevista à TRIBUNA DO NORTE no dia em que foram publicados, que a retração das exportações e da geração de empregos mostra a “degradação  da economia potiguar nos últimos anos” como fruto da “inação do governo”. “A nossa luta agora é mudar isso”, disse.

[dropcap color=”#000000″ font=”georgia” fontsize=”15″]Resposta à CODERN[/dropcap]

 

Célia Freire, Gerente Comunicação do Sebrae/RN

Com relação à matéria publicada na edição de sexta-feira (02), com o título “Ampliação da pauta é saída para exportações”, na retranca “Codern contesta perda em 2011”, esclarecemos que o trabalho realizado pela equipe técnica do Sebrae sobre o Comércio Exterior do Rio Grande do Norte mostra um panorama da economia potiguar no que ela tem de mais competitivo, as exportações. Conforme informado no próprio trabalho, foram utilizados números oficiais, contidos no site do Ministério do Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio Exterior MDIC. Esse site registrou que em 2011 a maioria das mercadorias exportadas por empresas potiguares saiu do Porto de Pecém, no Ceará. Revela também que a soma dos valores das cargas saídas por Parnamirim, Areia Branca e Natal é inferior à do porto cearense. O Sebrae/RN  compilou dados, que são dinâmicos. Esperamos ter esclarecido a questão e nos colocamos à disposição.

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