Author Archives: Daniel Dantas Lemos

About Daniel Dantas Lemos

Daniel Dantas Lemos é jornalista, pesquisador da área de comunicação e da linguagem. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Citada em denúncia, empresária processa blogueiro por calúnia e difamação

A vida profissional tem deixado a existência do blog em segundo plano.  Em virtude disso, por exemplo, fiquei devendo aos leitores uma série sobre a intrigante Operação Dama de Espadas.
No meu mundo profissional, sou professor de Ética e Legislação Jornalística há já alguns anos.  Fui responsável por essa disciplina na UFC e, atualmente, sou o condutor das disciplinas de Ética e de Legislação na UFRN.
Em virtude disso, tenho muita tranquilidade em algumas posturas.
Por exemplo, sempre dou como regra para os alunos a necessidade de que se não publique nenhuma denúncia sem se estar de posse de documentos comprobatórios e/ou testemunhos que as reivindiquem.
Também esclareço aos alunos o valor da responsabilidade: você é responsável pelo que publica – logo, esteja disponível para responder até diante de um juiz sobre o que você publicou.  Eventualmente, você tem de estar disponível para responder pelos crimes contra a honra e imagem que possa cometer – ou ser acusado de cometer.
Como se previne contra isso?  Respeita-se o modo de fazer do jornalismo e não se faz acusação sem que haja documentos que a comprovem.
Sempre agi assim nesse blog.
Logo, estou tranquilo sobre tudo que já publiquei aqui.
Ainda assim, esta manhã recebi a visita de uma oficial de justiça me intimando para uma audiência preliminar no dia 07 de outubro, 9h20, no 1o Juizado Especial Criminal de Natal.  Trata-se do processo 0107713-77.2015.8.20.0001 movido contra mim por Patrícia Martins de Lucena, proprietária da Refine Refeições Industriais.
Em 8 de março de 2015, no início da madrugada, publiquei o texto com título “Fraude em licitação na Secretaria Municipal de Saúde pode ter provocado prejuízo de quase R$ 2 milhões“.  Não pretendo defender a veracidade, ou não, das informações prestadas no site.
No entanto, agi de acordo com o que preconiza a prática jornalística e conforme ensino aos meus alunos.  Em resumo: recebi por parte de outro blogueiro da cidade uma informação acerca da documentação que fundamenta a denúncia, tendo-a publicado algumas horas depois. Sendo madrugada, o único envolvido com quem consegui contato foi o pregoeiro da SMS, Ivam Pinheiro.  Enviei, no entanto, emails para as empresas envolvidas e para o então secretário de saúde na época da licitação, Cipriano Maia.
Cipriano indicou que somente Ivam iria responder.  A prefeitura levou nove dias para enviar uma nota de esclarecimento, ainda que a cobrasse todos os dias.
Por meio de terceiros, a autora da ação, Patrícia Lucena, fez contato com o blog para que excluísse a publicação. Respondi que não poderia fazer isso, mas que podia entrevistá-la ou publicar uma nota de esclarecimento. Aliás, essa era minha intenção quando busquei contato com os envolvidos: dar espaço ao contraditório.
O leitor pode questionar se eu não devia ouví-los antes de publicar o texto. Meus alunos se lembrarão que eu sempre defendi que esse é o procedimento mais correto, ainda que excepcionalmente se justifique publicar antes de ouvir o outro lado.  Foi isso, exemplo de manual de jornalismo, que fez Renata Lo Prete na entrevista com Roberto Jefferson, em 2005, na Folha de S. Paulo, que detonou o escândalo do Mensalão: a entrevista foi publicada sem que se ouvisse o outro lado, que foi buscado imediatamente depois.
O que eu mesmo fiz nesta denúncia.  No caso em questão aqui, eram 2h da manhã e eu sabia que o material estava também de posse de outros blogueiros e jornalistas.   Mas ao publicar o texto, fui atrás dos envolvidos da melhor maneira que eu consegui. Ressalte-se: morava em Fortaleza nesta data.
Em 12 de março, quatro dias depois da denúncia publicada, a Garffus Grill se pronunciou na ferramenta de contato do blog. A Garffus não me processa, mas a peça de acusação inclui a publicação de sua nota de esclarecimento. Diz o advogado da autora que eu conferi “fantasiosamente direito de resposta a (sic) Empresa Garfus (sic) Grill, dividindo e inserido no meio da resposta do sagrado direito constitucional, informações de sua propriedade com o fito de induzir o leitor em erro”.  O engraçado é que o argumento é quase o mesmo que eu usei:

Recebi o e-mail, que reproduzo abaixo, assinado por Ivan Galvão de Araujo, representante da Garffus Grill, empresa citada pelo blog no domingo em virtude da licitação supostamente fraudulenta para aquisição de alimentação para as UPAs.
Direito de resposta não deve ser emendado, mas sinto necessidade de esclarecer dois pontos:

Por que me vi obrigado a apresentar essas informações na publicação?  Em primeiro lugar, porque Ivan Galvão de Araujo me procurou usando a ferramenta de contato com o blog, exatamente a mesma ferramenta que eu usei para entrar em contato com a sua empresa.  Sua primeira resposta, no entanto, foi informar que não tinha sido procurado.  Em segundo lugar, em momento algum eu levantei suspeitas porque as empresas tivessem sede no mesmo bairro, mas sim porque dividiam o mesmo telefone na ficha cadastral da Receita Federal.
Outro ponto em questão diz respeito ao Tribunal de Contas do Estado.  Quando o TCE questionou o processo licitatório, procurei uma fonte ligada ao Tribunal de Contas para saber se se referia ao mesmo processo.  E publiquei aqui.  Não disse que o TCE investigava os itens de minha denúncia, mas a mesma licitação.
Evidente que não exporei aqui os passos de minha defesa – até porque sequer conversei com os advogados ainda.
Mas agradeço aos apoios já recebidos de uns tantos amigos e companheiros.

FNDC divulga nota sobre situação da TV U e Superitendência de Comunicação da UFRN

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação divulgou nota em apoio à luta dos servidores da Comunica da UFRN

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) apoia a atuação dos/as servidores/as da Superintendência de Comunicação, gestora das emissoras de Rádio e TV Universitárias de Natal, além da Agência de Comunicação da UFRN, na defesa da comunicação pública.

Em um momento em que o país propõe o fortalecimento de políticas públicas de comunicação e em que a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) discute o seu modelo institucional, é inaceitável que uma universidade pública atue na contra-mão desse esforço.

Os/as servidores/as denunciam o desmonte da comunicação pública, a falta de condições de trabalho, as perseguições e à censura aos veículos públicos gerenciados pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Recentemente, o problema foi denunciado em carta aberta à reitoria e à sociedade (http://sintestrn.org.br/2015/wp-content/uploads/2015/09/CartaAbertaReitora.doc.pdf), na qual foram cobradas mais democracia e participação social na gestão da comunicação da universidade.

A Rádio Universitária FM, em seus 14 anos de existência, e a TV Universitária, no ar há 42 anos, são o embrião fundamental do sistema público de comunicação no Rio Grande do Norte. São as únicas emissoras abertas que podem se contrapor ao monopólio midiático privado que domina a paisagem comunicacional do estado, e que se repete em boa parte das cidades brasileiras.

Acreditamos que é fundamental que a reitoria reconheça o caráter público das duas emissoras, democratizando a gestão dos veículos e garantindo a participação da comunidade nas definições de sua gestão.

Pelas suas características constitutivas e missão pedagógica e transformadora, a universidade pública deve ter um compromisso ético com a criação de um ambiente midiático que não reproduza as distorções históricas da comunicação privada brasileira.

Para isso, deveria servir de referência, fazendo de seus veículos de comunicação o exemplo no qual a sociedade deve se pautar, ao contrário de simplesmente reproduzir relações de poder verticalizadas, que desprezam a participação da própria comunidade acadêmica e, de maneira mais ampla, excluem a contribuição da sociedade civil.

Brasília, 15 de setembro de 2015.

Pelos direitos do povo das ruas: Hoje é o dia nacional de luta da população em situação de rua

Hoje é o Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua.

Leia abaixo a nota do Centro de Referência em Direitos Humanos da UFRN sobre a data. Depois, assista “Conheço o meu lugar: a trajetória de Beto e outros Franciscos”, documentário sobre populaçã em situação de Rosana Reis, que tive a honra de orientar como trabalho de conclusão do curso de jornalismo da Universidade Federal do Ceará.

“Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim, descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”.
(Paulo Freire)

O Centro de Referência em Direitos Humanos – CRDH/UFRN é uma Instituição vinculada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte e à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República – SDH. O CRDH/UFRN vem ao longo da sua trajetória acompanhando os contextos de violações de direitos cometidos contra a população em situação de rua. Como principal estratégia de enfrentamento a violência contra esse segmento populacional, o CRDH/UFRN vem contribuindo no processo de organização política das pessoas que vivem em Situação de Rua no RN, através de apoio ao Movimento Nacional da População de Rua e fomento de discussões no Fórum Potiguar da População em Situação de Rua.
Historicamente no Brasil a aproximação do Estado com a população em situação de rua é marcada por meio da repressão e da violência. As iniciativas voltadas para população em situação de rua restringiam-se a ações religiosas, caritativas, que não reconheciam essas pessoas enquanto sujeitos de direitos. Essa relação só passa a se alterar, embora ainda exista até os dias atuais, quando a população em situação de rua se organiza, enquanto sujeito político coletivo reivindicatório.
O Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR) se expande e se fortalece, emergindo no cenário político do país após o massacre da Praça da Sé, ocorrido em São Paulo, no dia 19 de agosto de 2004, onde foram mortas sete pessoas em situação de rua, e oito ficaram gravemente feridas. O MNPR surge levantando a bandeira contra a violência, preconceito, discriminação, e o reconhecimento dessa população como sujeito de direitos, através da luta por políticas públicas para o segmento. “A luta organizada por políticas públicas, para a população que está em situação de rua, foi o caminho escolhido pelo Movimento Nacional da População de Rua para combater as violações de direitos e buscar condições dignas de vida, direito de todo cidadão” (MNPR, 2010).
No Rio Grande do Norte o MNPR surge em outubro de 2012, a partir da provocação da coordenação nacional do MNPR em parceria com o CRDH/UFRN. Desde então, o MNPR/RN vem ocupando importantes espaços políticos, como audiências públicas, atos públicos, conselhos, conferências, seminários, dentre outros. Neste dia 19 de agosto de 2015 o CRDH/UFRN reafirma seu apoio à luta da população em situação de rua contra toda forma de violência e pela garantia dos seus direitos sociais.

Pelos direitos do povo das ruas nenhum passo atrás!

Por que vou às ruas no dia 20?

Ruas e redes se disputam.
É uma disputa de projeto, da opinião pública. Do contexto e do cenário.
Eu tenho lado.
Fui às ruas na campanha do ano passado entusiasticamente defender a reeleição, vitoriosa, de Dilma Rousseff.  Que se elegeu com uma pauta de esquerda, empurrada por movimentos sociais, partidos, militância à esquerda.
Já disse antes: no dia 27 de outubro Dilma tinha de ter continuado seu abraço à esquerda.
Dissemos, por exemplo, ao ministro Miguel Rossetto semanas atrás: a presidenta falou em fim de autos de resistência e criminalização da homofobia no marcante comício de Itaquera, São Paulo.  Depois, não mais.
Tínhamos de ter ficado nas ruas disputando isso. Disputando a pauta dos direitos humanos, contra o ataque aos direitos trabalhistas, contra um ajuste que só atinge trabalhadores e pôs em risco um projeto político reeleito em 2014. Abandonado, aliás, no dia seguinte.
Saímos das ruas. Elas foram tomadas pelo que de pior a direita brasileira poderia produzir. Não falo do indiferenciado grito contra a corrupção dado ao lado de gente como o senador José Agripino (DEM), investigado pelo recebimento de R$ 1 milhão na Operação Sinal Fechado.  Falo da pauta que criminaliza a política, alimenta o ódio contra a esquerda, representa a emergência de ideias proto-fascistas. Saímos das ruas e as entregamos a eles.
É por isso que vou às ruas quinta-feira, dia 20.
É mais que a defesa da democracia ou do governo. É a defesa do direito dos trabalhadores, dos avanços sociais, ameaçados de um lado ou de outro. Vou ao lado do meu partido, o PT, mas vou ao lado de movimentos sociais e até de opositores do PSOL.  Porque não é Dilma quem está em questão. Somos nós, o povo.
Não disputamos as ruas para sabermos quem coloca mais gente ali. Vamos às ruas para dizer que há uma pauta a qual o povo não pode esquecer nem o governo negligenciar.
Por isso, comentários como esse de Daniel Menezes são profundamente inverídicos e emergem como estratégia de construção de uma narrativa. Diante de um ato de direita em Natal que reuniu, dizem, cerca de mil pessoas, é preciso antecipar uma narrativa que já construa antes do evento uma história de fracasso, de derrota.  Como se fosse a intenção ter mais gente que “eles” – não é.
Política e movimentos sociais não são para amadores.
Menezes, na verdade, deu o mote para desqualificar o movimento. Os argumentos para desconstruir sua narrativa foram anunciados atacando a pauta da democracia, a força de movimentos sociais organizados, os direitos dos trabalhadores do campo e da cidade.
Daniel joga para a sua plateia, o público que disputa com o seu Potiguar: um público de direita, acostumado a ler Thaisa Galvão e Bruno Giovanni.  Sua mensagem de desqualificar um ato que diz menos respeito ao governo Dilma e mais à pauta de lutas dos movimentos sociais, dos trabalhadores e das esquerdas atinge em cheio tal objetivo.
Movimentos sociais se retraíram nos últimos tempos diante da ofensiva direitista. Mas tem impulso em novas lideranças como Guilherme Boulos, do MTST, que deu a tônica do que representa o movimento de depois de amanhã em encontro recente com a presidenta: nem o Ajuste Fiscal nem a Agenda Renan representam aquilo que o país e a sociedade brasileira mais precisam. É isso que se disputará nas ruas.
Boulos e o MTST colocaram 20 mil pessoas no centro de São Paulo semana passada em defesa da moradia digna e da democracia. Semana passada, cem mil Margaridas coloriram Brasília.  Ruas e redes se disputam.
Conheço Daniel Menezes há alguns anos. Na primeira vez em que nos encontramos, entendemos várias coisas que nos uniam e algumas que nos distinguiam. Uma das coisas que tínhamos em comum eram os constantes ataques que sofríamos da parte de um jornalista potiguar em sua coluna de jornal e seu blog na Internet. Atualmente, processo o jornalista.  Daniel havia trabalhado com ele em campanhas eleitorais, conduzido pela relação de amizade que o jornalista tinha com seu pai.  Depois que romperam as relações profissionais e de amizade, Daniel, juntamente comigo, Miguel Nicolelis e Ailton Medeiros nos tornamos alvos preferenciais do tal jornalista.
Depois da campanha do ano passado, divergências profissionais o afastaram gradativamente do PT – seu afastamento foi se manifestando em textos cada vez mais críticos contra o partido e seus dirigentes no Rio Grande do Norte. Daniel costuma afirmar que os petistas fazem análises apaixonadas, pouco isentas, a partir do que chama de atitude de superioridade moral da esquerda.
Aliás, já na primeira conversa ele disse que não se considerava alguém nitidamente de esquerda, mas liberal.
Atualmente, O Potiguar é um dos sites mais lidos do estado. Ele disputa hegemonia, repetindo algumas fórmulas de sucesso utilizadas por Bruno Giovanni e Thaisa Galvão, os dois blogueiros mais influentes do Rio Grande do Norte.  Disputam o mesmo público que, entre outros elementos, tem forte característica antipetista.
Questionei Daniel Menezes sobre seu post.  Menezes disse que “esses atos [do dia 20] serão minguados, bem menores, e, muito provavelmente, logo em seguida, à noite, algumas matérias pipocarão nas redes sociais e nos jornais televisivos dando conta de que alguns militantes foram remunerados para estarem ali presentes.  (…) O pessoal não compreendeu que ‘as ruas foram perdidas'”.
A narrativa para significar o ato, independente do que ocorra, já foi dada por Menezes.
Se as ruas foram perdidas (não acredito que o foram) é porque os movimentos sociais e populares, os trabalhadores e a esquerda recuaram após a eleição ano passado. Saímos da disputa e aí tudo foi de mal a pior: a agenda Cunha foi imposta contra o país, o ajuste do Levy que só atinge o trabalhadores e, agora, a Agenda Brasil de Renan.
Urge retornar às ruas.  Não se trata de disputar quem coloca mais gente nelas, mas de descortinar que outras questões precisam ser propostas: não é democrático derrubar uma presidenta recém-eleita contra quem não pesam acusações nem evidências; os direitos dos trabalhadores precisam ser preservados; as minorias defendidas; os avanços sociais garantidos. Mais importante: é preciso dizer à direita e ao governo que a pauta que venceu a eleição precisa ser respeitada e implementada.

“Pode até ser um balão junino”, diz militar sobre OVNI filmado por piloto comercial

Conversei com um aviador militar sobre o vídeo publicado aqui. É o registro feito, por um piloto comercial, a 36 mil pés, desde a cabine de um A 318 que fazia o vôo entre Brasília e Campo Grande.
O militar me explicou que é muito difícil determinar exatamente do que se trata a imagem. Segundo ele, a 36 mil pés (ou 11 mil metros) somente drones militares poderiam chegar. Também helicópteros não alcançam tal altitude.
“Pode até ser um balão junino”, comentou. Questionei, com base na minha ignorância em questões de aviação, se um balão poderia alcançar tal altitude e como se explicaria o fato de que a distância relativa entre objeto e aeronave não se altera – como se o objeto voasse à mesma velocidade do A 318.
“À noite, como perdemos a noção de profundidade, é impossível ter uma noção de distância”, respondeu. “Uma luz fraca pode estar perto e uma luz forte pode estar longe e a sensação ser de que estão à mesma distância do observador”, concluiu.
Reveja o vídeo, compartilhado pelo jornalista Ailton Medeiros, abaixo.

Conexão Cerveja: a fragilidade frustrante da denúncia da IstoÉ

A IstoÉ desta semana acusa a Conexão Cerveja. Em sua capa, informa que documentos comprovariam como Walter Faria, dono da Cervejaria Petrópolis, que faz a cerveja Itaipava, teria recebido dinheiro do esquema desvendado pela Operação Lava Jato e, daí, abastecido as campanhas eleitorais do PT.

Li a matéria inteira esperando uma informação que comprovasse o que a manchete vendia.

Frustrante.
O que se tem: suspeita-se que uma conta na Suíça usada pelo PMDB (não dito na matéria, no entanto, mas sabe-se que Cerveró é Baiano operavam para o partido) fosse do dono da Itaipava, que nega, no entanto, ser dono da conta.
O volume circulado nessa conta, no entanto, não equivale às doações eleitorais feitas por ele ao PT e seus candidatos. E não há uma evidência de que o dinheiro que entrou na conta, cuja propriedade Faria nega, foi para a campanha.

O pior é que a IstoÉ vincula a empresa Zuquete Empr. e Part. LTDA, cuja participação acionária Faria declara em seu imposto de renda, à Zucchetti International LTD, para tentar provar sua denúncia.  Diz textualmente: “A declaração do Imposto de Renda de Walter Faria mostra que ele próprio do [sic] dono da Zucchetti International LTD”, enquanto aponta a declaração com o nome “Zuquete Empr. e Part. LTDA”.  A denúncia inteira se sustenta nessa informação visivelmente forçada.

Leia a matéria aqui.

Em 2010, Dirceu buscava informação sobre tucano envolvido na Operação Sinal Fechado

Tavolaro foi alvo de investigação após a Sinal Fechado

Tavolaro foi alvo de investigação após a Sinal Fechado

Uma informação do Estadão, hoje, acerca da investigação da Polícia Federal sobre José Dirceu traz um personagem interessante sobre um caso investigado no Rio Grande do Norte.
Trata-se da Operação Sinal Fechado.
Segundo a matéria, José Dirceu estava interessado em Luiz Antônio Tavolaro em 2010, quando o advogado, ligado ao senador Aloysio Nunes (PSDB), era Procurador-Geral do Município de São José do Rio Preto.
Tavolaro, um ano depois, foi investigado e denunciado pelo Ministério Público do RN por envolvimento nos crimes relacionados à inspeção veicular obrigatória no Rio Grande do Norte.  A Operação Sinal Fechado tem entre os réus a vice-prefeita de Natal e ex-governadora Wilma de Faria (PSB).  No âmbito do STF, o senador José Agripino Maia, presidente nacional do DEM, é investigado por ter recebido pouco mais de R$ 1 milhão do esquema. A investigação conta com pelo menos dois delatores.  Além do homem que aparecia como líder da organização, o advogado George Olímpio, o empresário de Rio Preto Alcides Barbosa foi quem primeiro surgiu como delator no esquema – citando, inclusive, o envolvimento de Tavolaro.

Leia a matéria do Estadão abaixo:

Quebra de sigilo do e-mail de Julio Cesar dos Santos, que foi sócio minoritário da JD Consultoria até 2013, revela que o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil/Governo Lula)contava com apoio de petistas na Assembleia Legislativa de São Paulo para levantar informações sobre pessoas ligadas ao PSDB e estava interessado, em 2010, na relação do advogado Luiz Antonio Tavolaro com o ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto.

“Falem comigo sobre o cidadão (Luiz Antonio Tavolaro), pelo visto encobre para o Paulo Preto imóveis em São Paulo e Ilhabela, ligado ao Mendes Thame (em referência ao deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame, do PSDB) e ao Aloysio Nunes Ferreira (senador do PSDB)”, disse o ex-ministro em mensagem encaminhada para Julio Cesar e Roberto Marques, o Bob, braço-direito de Dirceu. A mensagem foi enviada em novembro de 2010, um mês após Dilma Rousseff ser eleita presidente da República vencendo o candidato tucano José Serra no segundo turno.

VEJA O E-MAIL EM QUE DIRCEU CITA OS TUCANOS:

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No e-mail, Dirceu ainda encaminha um texto de Antonio Lucas Buzato, assessor da liderança do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo até maio deste ano, descrevendo quem é Luiz Antonio Tavolaro. Tavolaro atuou como diretor jurídico da Dersa entre 2003 e 2007 e na época do e-mail era procurador-geral da prefeitura de São José do Rio Preto. “Informação do nosso povo em Rio Preto: A administração da prefeitura de Rio Preto é comandada pelo prefeito Waldomiro Lopes, pela Secretária de Finanças e pelo Procurador Geral do Município, ambos indicados pelo PSDB. São essas que para o bem e para o mal controlam todos atos administrativos do município”, diz o texto de Buzato repassado por Dirceu.

Ao final do texto, Buzato afirma ainda que pode “fazer um trabalho mais aprofundado sobre esse assunto, inclusive contando com os nossos meninos da assessoria técnica da nossa bancada na Alesp”.

Durante as eleições presidenciais daquele ano o PT utilizou o nome de Paulo Preto contra José Serra. A própria Dilma Rousseff, em um debate na televisão, citou o ex-diretor e, citando uma reportagem da revista Istoé, afirmou que ele teria arrecadado e se apropriado de R$ 4 milhões supostamente doados por apoiadores de Serra na época. Além disso, a bancada do PT na Câmara acionou o Ministério Público para investigar Paulo Preto. Naquele ano, o senador Aloysio Nunes admitiu que era amigo de Paulo Preto, mas rechaçou as acusações do PT sobre os R$ 4 milhões.

O senador José Serra sempre negou o episódio. Paulo Preto também sempre rechaçou as acusações contra ele.

A quebra do sigilo do e-mails consta de relatório da Polícia Federal encaminhado ao juiz Sérgio Moro para pedir a prorrogação da prisão temporária de cinco investigados na 17ª fase da Lava Jato, incluindo Julio Cesar. O pedido foi acatado pelo juiz Sérgio Moro nesta sexta-feira.

Veja: Dos dólares de Cuba aos dólares de Romário

É praticamente ponto pacífico entre jornalistas e pesquisadores de jornalismo a ideia de que objetividade, imparcialidade ou neutralidade são apenas construções ideológicas do campo – inexistentes, portanto, no âmbito da linguagem, ainda que enfatizadas especialmente por poderosos meios de comunicação como se fossem sua prática.  Qualquer imparcialidade só existe no discurso para procurar ocultar os próprios interesses e as próprias intenções comunicativas.

Por isso, não tenho problemas em ler veículos de imprensa que partam de pontos de vista diversos do meu, especialmente ideologicamente falando, desde que sejam capazes de não abandonar a prática da atividade jornalística.  Clóvis de Barros Filho em seu “Ética na comunicação” apresenta essa discussão focando na objetividade. No fim, ficamos na certeza que o que importa no jornalismo é respeitar os modos de fazer já que os condicionamentos ideológicos e discursivos são inescapáveis.

Lembro bem qual foi o dia em que eu desisti de ler a Veja.  Em 2005, a Veja publicou uma séria denúncia: assessores de Palocci haviam transportado dólares cubanos na campanha de 2002 em caixas de bebida.  Na madrugada em que a matéria foi publicada, a oposição se assanhou nos comentários. Em poucos dias, a matéria saiu da mídia. E eu desisti da Veja. Por quê?

A matéria tinha três “fontes”:  um vira as caixas, mas não o que havia dentro; outro vira as caixas, mas ouviu de um terceiro que dentro havia dinheiro; o terceiro, que teria visto o dinheiro, estava morto. Isso não é jornalismo.  Lembro que minha reflexão foi: a Veja conseguiu estragar uma denúncia que pode até ser verdadeira. Sem a devida apuração, a denúncia caiu no vazio e se transformou em uma das histórias que para sempre serão lembradas contra o semanário da editora Abril.

O fazer jornalístico exige que você só possa publicar algo que possa provar.  Há ainda a chamada regra das três fontes, que libera uma publicação desde que três diferentes fontes, pelo menos, que não o repórter saiba que não articularam uma versão, confirmam a mesma história.  No caso dos dólares cubanos, a Veja falhou no uso dessa regra.

As fontes precisam ser ouvidas com critério e utilizadas com parcimônia. O risco é de um jornalismo declaratório que não acrescenta evidência nenhuma.

A Veja voltou à baila nos últimos dias devido à denúncia de uma conta do senador Romário de Sousa na Suíça. O ex-jogador teria US$ 7,5 milhões em uma conta no BSI. O banco afirmou que os documentos eram falsos e acionou o Ministério Público suíço para investigar a questão. Romário promete um processo de R$ 75 milhões contra a editora Abril.

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O problema desta vez foi a falta de checagem.

Tem um check-list que costumo apresentar a meus alunos:

Informação precisa, mas insuficiente? Apurar mais.

Muita informação, mas imprecisa? Fazer checagem.

Pouca informação, ainda por cima imprecisa? Refazer tudo.

Informação precisa e abundante? Publicar matéria.

Por que uma revista como a Veja, que se resume a um panfleto denunciatório, incorre em um erro milionário como esse?  Porque a denúncia hoje é mais importante que o correto fazer jornalístico. O veículo pode ter o lado que quiser ter, pode ter a posição político-ideológica que desejar, desde que não fuja da responsabilidade técnica com o jornalismo.

A revista inventou ou deu guarida a um documento falso para incriminar um senador da República que, coincidentemente, se opõe a antigos parceiros da editora na CBF.  Para piorar, ainda que tenha pedido desculpas, ainda não informou a origem do erro.  Se uma fonte inescrupulosa passa uma informação falsa a um veículo de imprensa e este não deixa isso claro, preservando a fonte, é o veículo que tem sua reputação arranhada. Ao passar um documento forjado ou uma informação falsa a fonte já quebrou o acordo informal de confidencialidade e sigilo. Não cabe mais ao jornalista ou revista manter tal sigilo sob pena de sua credibilidade se esvair por completo.

Junto a certo público, a Veja ainda tem sua credibilidade. Seu problema não é ideológico, mas ético e profissional. E, em dez anos, as coisas não parecem ter melhorado.