A importância do hub postal e da integração inter-modal no Aeroporto de Natal.

Comentário em áudio, no Jornal 96.

Muito se tem falado do Hub da Latam como fonte de futuros investimentos, empregos e movimentação turística para Natal e arredores. Mas quero aqui chamar a atenção para a componente menos visível destas discussões: o de que Natal poder voltar a ser, 90 anos depois de ter sido a “encruzilhada do mundo”, um centro de integração e conexão de cargas postais para todo o continente sul-americano.

A América do Sul é carente de estruturas deste tipo. Para se ter uma idéia, o aeroporto considerado “hub da América Latina” é o de Miami! Recentemente, Tocumen (aeroporto da Cidade do Panamá) vem se perfilando comercialmente para ocupar parte deste nicho de mercado, em função da sua posição intermediária latitudinal – conceito geo-logístico importante que indica equidistância das principais origens e destinos das Américas. Mas Tocumen ainda ocupa a 20a posição no ranking de aeroportos de carga latino-americanos, atrás de México, Bogotá, Lima e aeroportos brasileiros como Guarulhos e Viracopos.

Portanto, há um nicho escancarado na América a ser ocupado. E Natal possui, há quase um século, o reconhecimento mundial de sua posição geográfica privilegiada quando se trata de intermediação longitudinal – entre os continentes americano, europeu e africano.

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Como ressaltei na coluna anterior, Natal foi quem recebeu o primeiro serviço aeropostal internacional na América do Sul: a diligência partiu em 1o de março de 1928 de Paris por avião até Dacar e de lá para Natal o trajeto ainda foi coberto por embarcações. Daqui de Natal, as encomendas e cartas eram transportadas via aérea para Buenos Aires, Rio e outros destinos do nosso continente. O ganho de tempo foi fantástico. Segundo o historiador Rostand Medeiros, “antes deste novo serviço, uma carta transportada em linhas de navegação normais, poderia demorar até 30 dias entre a França e a Argentina. Com a mala postal aérea francesa, no máximo 8 dias.” – ver post sobre História da Aviação Francesa no Rio Grande do Norte. Dois anos depois, o aviador Jean Mermoz completou a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, com chegada em Natal, em 12 e 13 de maio de 1930). E o serviço Aéropostale passou a ser completo para toda a América do Sul, uma vez que a travessia dos Andes, entre Argentina e Chile, já havia sido completada por outro piloto francês, Henri Guillomet, em 1929.

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Com a confirmação do “hub dos Correios”, inicia-se uma trajetória para que Natal volte a ser o hub postal internacional do Brasil, com atenção especialmente voltada para as regiões Nordeste e Norte do país, e logo para todo o norte da América do Sul e Caribe.

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É forçoso observar que as empresas postais viveram (e ainda vivem) um processo em que tiveram que se reinventar completamente, diante do advento da internet e a consequente perda de utilidade das cartas e demais correspondências impressas. A grande maioria destas empresas tinham participação majoritária ou eram completamente de capital governamental, tal a importância estratégica do chamado “monopólio postal”. Por isso, algumas demoraram muito a se modernizar – uma delas a nossa estatal Correios. Todas as outras demoraram também, mas algumas saíram na frente – tais como a La Poste (francesa) e a Deutche Post (alemã). Estas empresas, além de migrar para a área de serviços bancários como extensão do hábito de ali se pagarem contas de luz, água, telefone, etc., se tornaram principalmente grandes operadores de logística de cargas prioritárias (por via aérea) e, portanto, complementos essenciais ao chamado “e-commerce” (comércio eletrônico).

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Não é à toa que o ranking dos principais aeroportos de carga do mundo demonstra que o fato de possuir a sede (mundial ou transcontinental) de empresas postais e logísticas conta tremendamente para assegurar movimentação e sucesso. Chamam a atenção os aeroportos de Louisville (sede da UPS) em 7o e o de Memphis (sede da Federal Express) em 2o. Anchorage (Alaska), em 9o, como hub postal/logístico para empresas chinesas, japonesas e americanas. A posição do principal aeroporto de Paris, Charles de Gaule (em 5o) e do de Frankfurt (em 1o) se distancia dos demais congêneres europeus justamente por terem sedes mundiais e regionais de empresas como La Poste, FedEx e TNT, e Deutche Post / DHL, respectivamente.

Ver aqui mapa dos mais importantes hubs de carga do mundo, a partir de estudo realizado pelo Dr.Jean-Paul Rodrigue, Depto. de Estudos Globais e Geografia, da Universidade Hofstra.

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A importância de ser intermodal 

Em torno destes aeroportos, gigantes operadores de carga aérea graças a empresas postais internacionais, passa a gravitar uma cadeia produtiva industrial e comercial de grande escala: centros de distribuição e armazenamento, logo também centros de montagem, assemblagem de sistemas, containerização; fábricas e serviços de embalagem, enchimento; fabricação de PVC, isopores, gradis de madeira, cartolinas e papelões; beneficiamento e manipulação de perecíveis, congelados e embaladores a vácuo; preparação e exportação de cargas vivas (já habilitada em São Gonçalo do Amarante), entre outras várias atividades conexas.

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Portanto, trata-se de uma imensa conquista esta de hospedar o hub dos Correios, confirmada em entrevistas recentes por parte de seus dirigentes, e iniciada por proposição da então deputada Fátima Bezerra junto à estatal postal nacional, em 2012. Trata-se de uma semente importantíssima, e um fator de grande peso para a escolha estratégica de empresas como a LATAM, a Lufthansa Cargo, a Azul/TAP e outras que desejem situar-se em ponto intermédio para os continentes americano, europeu e africano. Natal está 2% mais perto da Europa que a rota de Fortaleza, e 4% mais perto que de Recife. Segundo o Professor Rubens Ramos (UFRN), “pode parecer pouco, mas a margem de lucro das empresas aéreas é da ordem de 2% sobre vendas. Como o combustível representa cerca de 30 a 40% dos custos totais, tomando pelo menor impacto (30%), localizar o hub em NAT/SBSG (SBSG é o código internacional do aeroporto de São Gonçalo), dá uma vantagem de custo que corresponde um lucro de 0,6% sobre vendas em relação a FOR e 1,2% em relação a REC”, assegura.

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Em outras palavras, escolher Natal é escolher maior lucratividade. E isso falará mais alto que qualquer argumento político. Se for de fato conseguido o melhor preço de QAV (querosene de aviação) do Nordeste, em função da então desprezada Refinaria Potiguar Clara Camarão (RPCC), melhor ainda. Temos argumentos operacionais, logísticos e fiscais para justificar isso. Enfim, aguardemos as decisões e façamos o máximo para perfilar o RN como um bom ambiente para o investimento.

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Um dos grandes desafios que se terá que enfrentar a partir da consolidação de São Gonçalo do Amarante como “cidade aeroportuária” e “hub de cargas aéreas” é a conexão intermodal, ou seja, a forma com que esta localidade se conectará com o território nacional e com destinos internacionais através de modais terrestres e marítimos. Para o nosso aeroporto, será essencial ter acessos rodoviários de excelência absoluta (coisa ainda incompleta), mas principalmente, em breve, um ramal ferroviário de alta qualidade que o conecte, no mínimo, ao interior do Estado e daí ao Ceará e sistema transnordestino. 

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Daí a necessidade urgente que temos de discutir e projetar, de forma concreta e objetiva, o ramal ferroviário Assu-Natal e o terminal portuário de cargas e granéis do Potengi, conforme projeto proposto pelo Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia – CERNE em consonância com projeto anterior da Companhia Docas do RN (CODERN) ao Governo do Estado e à opinião pública. Este projeto não é apenas uma “alternativa portuária”, e sim um projeto de integração logística intermodal para o Rio Grande do Norte se consolidar como um hub de cargas regional, em termos marítimos, e global, em termos aéreos. Sem a intermodalidade, o hub aéreo estará ameaçado pois a vertente exportadora/importadora será prejudicada pelo atual isolamento terrestre e marítimo do nosso Estado.

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